[Crítica] Família de Aluguel (2025)

Uma surpresa de ar aconchegante e necessária

Mateus de Medeiros

12/20/20253 min read

O mundo contemporâneo não entende mais o trabalho como algo apenas mecânico, destinado apenas para o sustento financeiro da vida humana, mas sim como uma ação multifacetada que influencia o modo como vivemos. Ainda assim, muitos tipos de trabalho são vistos de forma negativa e/ou simplesmente têm sua importância menosprezada, como é o caso da locação familiar, muito presente no Japão e que ganha destaque na obra da vez: Família de Aluguel (2025).

Família de Aluguel (2025) nos apresenta Phillip Vanderploeg, um ator americano que luta para encontrar um propósito no Japão e acaba conseguindo um trabalho numa agência em que ele deve interpretar papéis de substituto para estranhos. À medida que ele adentra nos mundos de seus clientes, ele começa uma jornada de autodescoberta em que enfrenta a complexidade moral de seu trabalho.

Primeiramente, devo destacar que esse tema quase nunca aparece nas telonas e, geralmente, é tratado como um tabu, algo que a própria diretora do filme, Mitsuyo Miyazaki, mais conhecida como Hikari, comenta num vídeo que aparece logo antes da sessão começar. Há uma clara dificuldade de abordar tópicos sensíveis como esse e, honestamente, já esperava um completo desastre. Felizmente, isso não se confirmou.

A cineasta acerta logo de cara na escolha do papel principal. Hikari aposta no protagonismo de Brendan Fraser, que deu um show de atuação em A Baleia (2022), para dar força a melancolia praticamente anestésica que o personagem de Phillip enfrenta até reconhecer a importância de seu trabalho. O ator encarna essencialmente seu papel no filme e entrega uma excelente carga dramática para a trama. Sua interação com o resto do elenco movimenta toda a história e isso poderia se tornar, de certo modo, um risco à qualidade da obra. No entanto, isso acabou sendo um ponto positivo, pois os outros atores também não deixam transparecer fraqueza em seus papeis em nenhum momento.

É preciso considerar também o ótimo ritmo que o filme tem. 1 hora e 50 minutos pode parecer curto, mas é necessário ter conteúdo para preencher esse tempo, e Família de Aluguel tem. Ao mesmo tempo em que trabalha a temática social com calma, a obra avança em sua proposta sem perder tempo com o famoso “enchimento de linguiça”. Tudo que acontece traz consequências futuras e isso é importante para que haja conexão com ela, tanto que, enquanto assistia o filme, senti um clima bastante singelo e agradável. O tom do filme também é acertado, mas existe um pequeno trecho, com duração de cerca de 1 minuto, que me deu um leve susto ao mudá-lo bruscamente e, ao meu ver, poderia ter sido cortado sem prejudicar o desenvolvimento da história.

Não consegui encontrar o orçamento da obra, mas posso dizer que fizeram bom uso dele. Os cenários, a trilha sonora e a fotografia cumprem bem o seu papel em dar vida à narrativa. No geral, Família de Aluguel (2025) é uma surpresa, não por ser um filme complexo, mas por tratar um tema complexo de forma simples, mas emocionante, entregando um ar de aconchego e, ao mesmo tempo, necessário.

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