[Crítica] A Noiva (2026)

Revisitando o universo de Mary Shelley

França

3/4/20263 min read

“A Noiva!”, dirigido por Maggie Gyllenhaal, é baseado na obra de Mary Shelley e protagonizado por Jessie Buckley (Noiva/Dai) e Christian Bale (Frankenstein). Maggie Gyllenhaal entrega um filme muito interessante, que consegue transitar por todas as suas temáticas e fugir bastante do padrão. O longa passeia entre romance, terror e investigação, além de alternar, em alguns momentos, entre uma estética de época e uma filmagem mais “convencional”. A personagem presente nas sequências de época funciona quase como se fosse a própria Mary Shelley, reforçando a ligação com a obra original.

Logo no início, o filme mostra a Noiva/Dai falecendo. Antes de morrer, durante um momento de possessão como se não tivesse controle da situação — ela revela que um homem é o chefe da máfia. A fala surge de maneira abrupta, como se algo estivesse falando por meio dela. Jessie Buckley entrega um verdadeiro show de sotaques, misturando o inglês americano e o britânico de forma rápida, demonstrando essa fragmentação e a possessão que está acontecendo. Após essa revelação, ela acaba morrendo.

Além disso, a narrativa então muda para a chegada de um homem escondido sob chapéu e panos, procurando a doutora Euphronious por conta de suas pesquisas relacionadas à reanimação. Ele encontra uma senhora que, pouco depois, descobre ser a própria doutora que procurava. Christian Bale entrega muito no papel, interpretando um Frankenstein vivido, com pelo menos 100 anos, que vive em eterna solidão à procura de alguém que o entenda. Ele não quer qualquer pessoa quer alguém como ele.

Ele tenta convencê-la e consegue que ela encontre o corpo de uma jovem moça, que sabemos ser de onde surgirá a Noiva. Durante o ritual de reanimação, ela acorda confusa, sem saber quem é. Frankenstein mente, dizendo que ela sofreu um acidente e que ele era seu marido.

Após ser reanimada, ela passa a viver uma espécie de romance ao lado de Frankenstein. A intimidade entre os dois é construída de forma gradual, com ele demonstrando e ensinando, enquanto ela aprende a partir das memórias e narrativas criadas por ele. Ele a leva para várias sessões de cinema de musicais estrelados por um ator que manteve viva a ideia de esperança e propósito para Frankenstein ao longo dos anos.

Mais tarde, à noite, Frankenstein e a Noiva vão a uma espécie de festa ou bar. Lá, ela dança e se sente totalmente viva, envolvida por uma cena caótica de luzes e música pulsante. No entanto, a diversão rapidamente se transforma em perigo: ela é perseguida por alguns homens que tentam atacá-la, mas Frankenstein intervém e a protege. Enquanto eles tentam sair dali, dois homens tentam atacá-la novamente, e Frankenstein os elimina para garantir sua segurança

Diante disso, começam as investigações, conduzidas por um detetive e sua assistente sendo ela quem realmente move os acontecimentos. Paralelamente, em uma das viagens do casal dentro desse contexto mais caótico, eles encontram o ator dos musicais que tanto marcou Frankenstein. Frankenstein se apresenta, e o ator tenta manter a simpatia, mesmo diante de sua aparência, mas demonstra não se lembrar de nada do que ele diz. No meio da tensão, acontece um novo surto estilizado: todos os personagens começam a dançar novamente. Após a dança, policiais entram no local e ameaçam Frankenstein. A Noiva tenta fazê-los soltá-lo, ameaçando o ator, e então inicia um discurso contundente fala sobre como os policiais protegem o líder da máfia, sobre a forma como as mulheres foram menosprezadas ao longo do tempo e como cada uma delas teve sua língua cortada para que permanecessem em silêncio.

A partir desse momento, o filme passa a girar em torno dessas questões. A Noiva deixa de ser apenas uma criação e assume uma posição quase mítica, tornando-se uma espécie de mártir para mulheres em revolução. Paralelamente, a investigação conduzida pelo detetive e sua assistente sendo ela quem realmente move os acontecimentos reforça as conexões entre máfia, polícia e silenciamento feminino.

No fim, é um filme bastante interessante, com uma direção diferente e ousada. A obra utiliza diversos conceitos romance, terror, musical, investigação e crítica social para sustentar a história, oferecendo uma visão mais ampla e política sobre o conteúdo, ao mesmo tempo em que revisita o universo de Mary Shelley sob uma perspectiva contemporânea e provocadora.

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